A Dimensão Degenerativa: Quando Ser Quem Você É Vira um Peso

Por William Camilo – Psicólogo e Sexólogo

Em uma sociedade que insiste em nos colocar em moldes estreitos, ser quem você é — especialmente quando isso escapa às normas — muitas vezes se transforma em um fardo. O peso de uma identidade que não se encaixa nas expectativas hegemônicas pode se tornar sufocante. E quando essa identidade está entrelaçada com marcadores como negritude, sexualidade dissidente e ancestralidade, essa carga tende a se multiplicar.

Chamamos de dimensão degenerativa esse espaço simbólico e concreto onde o sujeito é constantemente minado, patologizado ou empurrado para a margem apenas por existir de forma autêntica. É um ambiente que não apenas nega o ser, mas o corrói lentamente — afetando sua autoestima, sua saúde mental e sua forma de se relacionar com o mundo.

O Peso de Existir Fora da Norma

Pessoas LGBTQIAPN+, negras, indígenas e outras identidades dissidentes vivem sob constante vigilância, julgamento e invisibilização. Em muitos contextos, “ser quem você é” vira sinônimo de resistência, mas também de desgaste. O cotidiano se transforma em um campo de batalha, onde o simples ato de amar, vestir-se, andar na rua ou escolher um pronome se converte em ato político — e, às vezes, em risco.

Essa vivência contínua de micro e macroviolências gera o que a psicologia chama de estresse de minoria. Mas, para além de rótulos clínicos, é uma dor existencial, que corrói devagar — como uma ferrugem que atinge não só o que se vê, mas tudo o que sustenta o ser.

Autoestima: Entre a Violência e o Cuidado

A autoestima, nesses contextos, deixa de ser uma questão de “confiança” e passa a ser uma construção política. Cuidar de si, afirmar sua beleza, sua voz, seu corpo, suas escolhas, é um gesto revolucionário. Mas é também um processo delicado, porque o mundo está constantemente dizendo que você não deveria existir como é.

A clínica afrocentrada que pratico reconhece isso: que o sofrimento não é apenas individual, mas fruto de um sistema. Não se trata de “consertar” pessoas, mas de ajudá-las a se reconectar com sua potência, sua ancestralidade e sua liberdade. É um cuidado que parte da escuta, do acolhimento e do reconhecimento das feridas sociais e históricas que cada pessoa carrega.

Para Não Adoecer de Si

A dimensão degenerativa é real — mas não é o fim. Precisamos falar sobre isso, reconhecer esse espaço e, a partir dele, construir alternativas. Quando nomeamos o sofrimento, já começamos a desativar parte do seu poder.

Por isso, afirmo: você não está doente por ser quem é. Você está adoecendo por ter que provar o tempo todo que merece existir. E isso não é justo.

É possível construir outros espaços — dentro e fora da clínica — onde o ser não seja um peso, mas um voo. Onde a identidade não precise se defender, apenas ser. Onde o afeto, o corpo e a alma possam respirar, se curar e se reinventar.


Se esse texto falou com você, talvez seja hora de começar.

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